segunda-feira, 30 de junho de 2008

Escrava Oriental

Desde que decidi morar no Canadá, mais precisamente em janeiro do ano passado, tenho trabalhado feito escrava oriental, como legítima descendente de japoneses que sou. Na verdade, há pouco mais de três anos, me deixei devorar por um ritmo frenético de trabalho. Em parte, por conta de acontecimentos na minha vida que me conduziram a tal situação, mas também porque de certo modo exagerei na dose. Some-se a isso a necessidade de levantar capital para viabilizar minha viagem, eis a fórmula perfeita para se afogar em tarefas e obrigações que durante anos tomaram até meus finais de semana.
Durante esse período, exerci duas atividades ao mesmo tempo: jornalista freelancer e professora de francês em duas escolas. De manhã, entrevistas ao telefone e preparação de textos em casa. No horário do almoço até o final da tarde, aulas de francês na USP. À noite, mais aulas de francês, desta vez no Senac. Aos sábados, idem. Por pouco quase não me transformei numa verdadeira franco-nipônica. Entre uma coisa e outra, não recusava convites para trabalhos temporários relacionados à minha área. Foram experiências muitas vezes exaustivas, mas enriquecedoras, sem dúvida.
Com a aproximação da minha viagem, em julho, estou experimentando, finalmente, o movimento inverso. Gradualmente, desligo-me de minhas atividades profissionais para me concentrar efetivamente nos preparativos de viagem e nas questões práticas que preciso resolver: casa, carro, contas, documentos, enfim, minha vida no Brasil.
Meu processo de afastamento iniciou-se no final de maio, quando, depois de cinco anos, deixei uma das escolas e passei a ter as noites e principalmente os sábados livres para fazer o que bem entendesse. No mês passado, última matéria escrita, numa parceira que muito me agradou e durou cerca de 3 anos. Agora há pouco, acabei de encerrar as correções de provas e fechamento de notas dos meus alunos da USP. Até sexta-feira, último dia de aula e trabalho, restam apenas entregar as médias e me despedir dos meus colegas professores que nos últimos cinco anos compartilharam desses momentos de labuta.

domingo, 29 de junho de 2008

Almoço de Despedida

Viajo apenas em julho, mas tia Kaká, cozinheira de mão cheia, gentil e generosa, decidiu nos oferecer um farto almoço de despedida. Como nos próximos finais de semana que antecedem minha viagem não conseguirei reunir muitas das pessoas queridas em torno de uma mesa, tratamos desde já de garantir o banquete. No cardápio: arroz, salada verde e de maionese, frango ao molho de creme de cebola e lasanha. Como sobremesa: pavê de chocolate e manjar de maria mole, além de suco de caju com limão e refrigerante. Obrigada tia Kaká, estava tudo delicioso!

sábado, 28 de junho de 2008

Médicos e Seres Elementais

Existem apenas duas alternativas. Avise-me se alguém encontrar outra explicação. Mas o fato é que ou é uma anedota das fadinhas, gnomos, anões e todos os seres elementais da floresta, ou alguém está de conspiração contra mim. Quando morei na Inglaterra e na França, sempre fiz check up médico às vésperas de viagem apenas para certificar-me de que minha saúde estava em dia. Nunca tive problemas com os procedimentos médicos (marcação de consulta, guia de exame, resultados de análises clínicas, etc) e felizmente jamais apresentei algum sintoma preocupante. Viajava tranquila, sabendo que estava em plena forma.
Para o Canadá, porém, a história é mais complicada. Pode parecer exagero da minha parte, mas desde maio marco consultas médicas e, no último momento, já no consultório do doutor, alguma coisa acontece. Tudo começou quando tentei agendar um horário com meu ginecologista, especialista que me acompanha há anos e por quem tem a maior confiança. Por alguma força esotérica, desta vez, a secretária não sabia me informar se o médico aceitava meu convênio. Como nunca houve empecilho antes, marquei a consulta ciente de que a confusão seria resolvida rapidamente.
Aguardei inutilmente o telefonema da secretária para a confirmação do horário. Como não houve eco, liguei, mas naquele dia o telefone estava com problemas. Insisti e ninguém sabia me explicar nada. Pensei melhor e decidi escolher outro profissional, talvez alguém mais perto de casa, afinal, tudo se transforma e por que não passar com outro ginecologista? Já que a idéia era mudar, optei por uma médica. Horário marcado, tudo acertado, chego para a consulta um pouco antes do previsto. A secretária pede para aguardar, pois a doutora estava atrasada. Perfeitamente compreensível, médicos se atrasam, especialmente ginecologistas e obstetras.
Meu horário era às 15h. A médica se atrasou 1h30 e antes de mim outras pacientes já estavam na fila. Com muita boa vontade, eu passaria em consulta lá pelas 17h30!. Claro, desisti e remarquei para a semana seguinte, às 18h. Retorno ao consultório exatamente no horário determinado e recebo a notícia de que a ginecologista havia saído minutos antes para atender uma paciente em trabalho de parto. Ok, ok, a maternidade é linda e os bebês são uns fofos, mas tinha de parir justo na hora da minha consulta???
Desisti dessa médica e procurei outra no meu livrinho da Unimed Paulistana. Agora sim, tudo agendado para ontem, às 18h45. Adivinhe? Não pude ir porque tive um "probleminha técnico", cujos detalhes prefiro poupá-los. Transferi a consulta para a próxima sexta e agora é rezar para o gnomo da sorte.

Enquanto aguardo o grand final dos exames ginecológicos, tratei de passar por um clínico geral. Finalmente, consegui uma consulta no último dia 12 e fiz parte dos exames solicitados. Glicose, colesterol, triglicerídeos dentro do nível aceitável, faltavam apenas o ultrassom de abdômen e o teste ergométrico. Como ambos não podiam ser realizados na mesma unidade laboratorial que os demais, marquei-os para hoje, sábado, às 8h.
Acordei às 7h e lá fui eu, sonolenta e em jejum, para a última etapa. Entrei no carro e a fadinha me deu o primeiro sinal de que tudo poderia piorar dali para frente. O pneu traseiro estava baixo, para não dizer colado no chão. Como tinha de ser pontual e não sabia ao certo se o pneu estava furado, passei num posto de gasolina e o calibrei, na esperança de que seria apenas um vazamento simples.

Cheguei, peguei minha senha, aguardei uns 40 minutos. A atendente me chamou e de cara lascou a pergunta: "guia do pedido médico, por favor". Calmamente, respondi que não havia nenhuma guia porque os exames estavam marcados. "Sem pedido médico, sem exame", respondeu curta e grossa". Daí para frente, meus caros, foi uma ladainha só. A moça me explicou tudo, absolutamente tudo, tudo o que precisava fazer. Da minha parte, tentava argumentar em vão que provavelmente o pedido tinha ficado no outro laboratório, quando fiz os primeiros exames. Ela negava, dizia achar estranho esse procedimento e tornava a repetir a mesma reza: "senhora, sem a guia médica não é possível fazer os exames. Você terá que remarcá-los".

Frustrada e ainda sonolenta, lancei-lhe um olhar cortante, levantei-me, virei as costas e fui embora. Na saída, quando o manobrista me entregou o carro, percebi que o pneu estava mesmo furado. Faminta (não respondo pelos meus atos quando estou com fome) e com a bexiga cheia porque tive de tomar seis copos d´água por conta do ultrassom abdominal que não aconteceu, passei ainda na borracharia.
Arrumei o pneu, mas gostaria de registrar que desde o final de maio até agora, esta é a quarta ou quinta vez que os troco. Nas últimas duas semanas, três deles furaram. Estou esperando o outro pneu traseiro furar ou furarem (se é que me entendem), pois só falta esse. Cheguei em casa, monstruosamente faminta, procurei a guia e a encontrei na minha pasta, sobre a escrivaninha, snif, snif.... É ou não é para desconfiar?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Menos é Mais

Uma das grandes lições que uma viagem proporciona é o exercício do desapego. Partir, não importa o destino e as razões que o mobilizam a colocar-se em movimento, é antes de mais nada abrir mão de muitas coisas: livros, cds (estes são os mais difíceis!), roupas, sapatos, objetos da casa, tranqueiras, carro, bicicleta, sofá, cama, enfim, toda uma parafernália acumulada ao longo de anos e que constitui sua história.
Doar, vender, desfazer-se, dar, jogar fora, tocar fogo, nem sempre é fácil da primeira vez. Há sempre aquela sensação de que o livro jamais lido e o sapato velho e confortável serão imprescindíveis na sua rota de viagem. Esqueça. Sua mala, já abarrotada de pertences que você também poderia ter se livrado antes, não suporta nem mesmo aquela presilha tic-tac vermelha comprada na feira a 1 real.
Nessas horas, a pergunta que não quer calar é: preciso mesmo disso? A resposta, surpreendentemente, é não. Então, você chega ao essencial. E, acredite, a sensação é bem bacana. Superada a etapa de vasculhar seu baú material e emocional, as outras vezes são menos sofridas e em alguns casos é preciso até manter o controle para não desfazer-se demais de tudo. É nessa fase que estou. Muita coisa já se foi e ainda resta vender o carro. A saga começa aí.


Pois bem. O primeiro passo foi lavá-lo. Aconselhada pelo meu amigo Edgard, que insiste em dizer que meu carro já perdeu 50% do valor de mercado por conta da terra grudada na lataria e das folhas que voam quando aciono o sistema de ventilação, fiquei com medo e mandei fazer o serviço completo. Devo admitir, o carro ficou uma jóia e reluz como diamente.
Depois, a parte mais importante: vendê-lo. Hoje, foi minha primeira tentativa e passei em concessionárias somente para assuntar. Sei que o mercado não está propício para a venda de veículos usados, afinal, com as facilidades de financiamento, muitos preferem assumir uma dívida a longo prazo. Até aí, tudo bem. A chatice mesmo fica por conta dos vendedores que te desprezam quando você entra na loja e diz que não quer comprar, mas, vender.
O discurso já vem enlatado e, posso estar cometendo uma injustiça sem fim, mas o fato de ser mulher não contribui nenhum um pouco para a venda do meu Fox 1.0 Flex. A indisposição de alguns vendedores é explícita e a frase fatídica, inevitável: "você vai pegar muito pouco pelo seu carro. O mercado está desaquecido (eles adoram essa palavra!) e vai ser muuuuito difícil vendê-lo". Um deles foi além e completou: "para conseguir arrumar uma concessionária disposta a negociar, você vai ter que ir de uma em uma (repare na ênfase da frase: de uma em uma) perguntando se querem comprá-lo"; lançando-me em seguida um olhar de pena misturado com um sorrisinho de quem demostra o quanto minha situação é lastimável, para não dizer outra coisa.
Tudo bem, tudo bem. Sou uma pessoa desapegada que valoriza a filosofia do menos é mais. Estou tranquila, confiante e inabalável diante desse maldito mercado de veículos novos e usados e seus vendedores tagarelas. Minha paz interior é tão grande que gostaria de compartilhar com vocês esse momento de reflexão: eu preciso vender esse carro, pelo amooooorrrrrrr de Deus! Algum interessado em comprá-lo a um preço justo, por favor, manifeste-se agora, dê um sinal de vida imediatamente, faça alguma coisa em nome de Jesus, Buda, Oxalá, Edir Macedo!!!!!!!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Plano Turístico

Contratar um seguro de saúde internacional nunca esteve nos meus planos de viagem. Talvez por imprudência ou excesso de confiança numa saúde inabalável, apostava na sorte e seguia feliz da vida, crente que doença, hospital, médicos e remédios não combinavam com projetos de viagem. Mesmo quando morei na França, adquiri uma assistência médica lá mesmo, e ainda assim o fiz porque a lei exigia para a obtenção da carte de séjour.
Hoje, sei que para entrar na França é obrigatório sair do Brasil com um seguro de viagem. Na minha época, a assistência médica somente era exigida nos casos em que o viajante, vencido o prazo de três meses, desejasse continuar no país por mais tempo. Com tal obrigatoriedade, comprar uma assistência médica em Paris a um preço modesto e em condições aparentemente pouco confiáveis, era mais fácil do que dizer Je t´aime.
Havia uma verdadeira indústria de assistência médica com pequenos escritórios espalhados pela cidade, que ofereciam planos dos mais variados a preços compatíveis com cada bolso, especialmente para estrangeiros muito mais preocupados em obter o visto do que zelar pela própria saúde. Felizmente, nunca testei sua eficácia, pois jamais precisei utilizá-la.
No Canadá, porém, a história é outra a partir de hoje. Ainda embalada pelo meu dolce far niente das últimas semanas, acordei (tarde, para variar) e decidi, repentinamente, assinar um seguro de viagem. Há semanas havia pesquisado preços e empresas especializadas, mas confesso que o tema não constava na minha lista de pendências de viagem.
Para quem não sabe, residentes permanentes, como é o meu caso, têm acesso gratuito e irrestrito à rede de saúde pública canadense. Mas, ao chegar ao país e depois de preencher os formulários, o novo habitante somente poderá usufruir do benefício passada a carência de três meses. Durante esse período, qualquer ajuda médica ou problema de saúde deve ser pago pelo próprio residente. Aí, o valor pode ser uma bobagem ou custar toda sua economia.
Com medo de pegar uma gripe horrorosa depois de uma lufada de vento glacial na nuca ou cair de boca numa calçada coberta de neve, pensei melhor e assinei o contrato. Escolhi o Plano Turístico, o mais simples da categoria, com vigência de 90 dias. Os preços variam muito e existem planos que custam bem caro, sendo estes uma boa opção para os hipocondríacos e aqueles que gostam de comprar remédios de tarja preta em língua estrangeira.
Entre outros benefícios, meu plano prevê a cobertura de gastos médicos hospitalares por doença, assistência odontológica e até adiantamento financeiro penal e repatriação por morte (Ai, que medo!!!!). O processo para solicitação de reembolso no Brasil é um pouco burocrático, pois requer enviar originais de receitas e laudos médicos pelo correio, ligar para a central de atendimento no Brasil para informar o ocorrido, e ainda assim escrever uma carta de próprio punho contando seu martírio.
Depois, é preciso fornecer a conta bancária do procurador ou de alguém confiável para receber o dinheiro em seu nome, aguardar o prazo de aprovação (que pode levar até 30 dias, segundo me informou a atendente) e, finalmente, combinar com seu amigo, família, procurador, gato, cachorro ou papagaio a melhor maneira de mandar novamente esse dinheiro para sua conta corrente no estrangeiro.
Argumentei que entre taxas, interurbanos internacionais e outras despesas, meus gastos sairiam mais caro do que o próprio plano. A atendente me garantiu, no entanto, que o negócio é simples. Entre mortos e feridos, por um momento tive a impressão de que no final das contas, vale mais a sorte e o "faça uma boa viagem" dos amigos.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Dolce Far Niente

Você descobre que sua viagem começou antes mesmo de arrumar as malas e desembarcar no destino escolhido quando se dá conta de que as dez bilhões de atividades das quais você se entope diariamente, pouco a pouco, perdem a importância. Literalmente, chuta-se o pau da barraca e o que não cai de uma vez, é empurrado com a barriga até o dia da partida. Até lá, claro, você tenta manter a pose, afinal, não quer ser chamada de inútil.
O mise-en-scène, porém, dura pouco, e uma vez assumida a farsa, resta apenas desfrutar o prazer indescritível do ócio, esse dolce far niente com direito a um cochilo depois do almoço ou música ao despertar enquanto pensa o que comer no café da manhã. O processo para chegar a tal nível de indolência nem sempre é evidente. No meu caso, iniciou-se com algumas desculpas muito esfarrapadas e sem vergonha ao longo das duas últimas semanas, até que assumi de vez que não estou nem aí messssmooooo!
A primeira delas veio bem a calhar. Com a chegada do inverno, usei o pretexto do frio para deixar de correr diariamente no parque, na esperança de que até o final desta semana retome meus treinamentos (Ah, então tá). Depois, como estou com as noites livres desde que me demiti de um dos meus trabalhos, fico conectada à internet até altas horas da madrugada, sob a alegação íntima de ter coisas importantes e inadiáveis para ler, escrever e pesquisar. Men-ti-ra!!!!!! Minhas navegações noturnas se resumem a ler blogs de amigos, criar o meu próprio blog (como vocês mesmos podem atestar), bisbilhotar páginas alheias do orkut, gravar músicas, pesquisar assuntos inúteis no Google, enviar e ler emails.
Também ando bem relapsa com minha alimentação. Não gosto de cozinhar e estou longe de ser uma verdadeira chef de cuisine, mas sempre me esforço para preparar em casa minha própria comida. Quem me conhece sabe o quanto aprecio uma alimentação saudável, comer em horários fixos e várias vezes durante o dia. Agora, abandonei até as compras mensais no supermercado! Bateu a fome, vou para a rua e procuro um lugar para comer. E, para coroar de vez minha lista de pequenos delitos pré-viagem, passei a acordar bem mais tarde, estou sempre em cima da hora (culpa do trânsito), e a qualquer momento posso ser acometida de pequenos ataques histéricos quando me lembro que 4 de julho é meu último dia de trabalho!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Contagem Regressiva

Começa hoje a contagem regressiva para minha viagem ao Canadá. Dentro de 30 dias chego em Montreal, onde pretendo, a partir desse Carnet de Route, compartilhar com amigos queridos, curiosos e visitantes eventuais, experiências, impressões e desatinos vividos nas terras glaciais. Bienvenue et Allons-y!