segunda-feira, 30 de março de 2009

Opus

Para evitar as filas e os usuários que ainda não se acostumaram a utilizar as máquinas para recarregar o cartão Opus do metrô todo final do mês, resolvi fazê-lo tarde da noite, por volta das 22 horas, quando voltava da aula de inglês. O sistema é interessante porque permite o uso do cartão de débito e nos poupa de passar no guichet e ter de pagar sempre em cash.
Você pode utilizar o cartão Opus por 30 dias, quantas vezes quiser, nos ônibus e metrô de Montreal. Para isso, terá de desembolsar 68,50 dólares canadenses, já incluídas as taxas. Se você ainda não tem a Opus, precisará pagar algo em torno de 4 dólares canadenses para adquirir o cartão. Tudo bem que de um modo geral o transporte público em Montreal funciona bem, mas não há como negar que esse valor pesa no bolso todo final do mês.

domingo, 29 de março de 2009

Pelo Planeta

Uma das coisas mais gratificantes de morar em outro país é a possibilidade de conhecer pessoas de todas as partes do mundo. Seria ingenuidade dizer que é sempre fácil lidar com culturas muitas vezes tão distintas da sua, modos de pensar, agir e reagir. Ao mesmo tempo, é desse suposto "estranhamento" que brota um olhar mais sofisticado e atento em relação ao outro, mais tolerância e menos julgamentos precipitados com aquilo que não lhe é peculiar. É por isso que quando a saudade de casa e das pessoas queridas fala mais alto, não perco de vista quem eu sou, de onde venho e quão enriquecedora é a possiblidade de compartilhar minhas atuais escolhas e experiências com cambojanos, peruanos, paquistaneses, franceses, chineses, canadenses, indianos, americanos, argelinos, tchecos, filipinos e toda essa gente que circula pelo planeta.

Gosto Não se Discute

Faz seis meses que moro na casa de Ginette. Embora meu relacionamento com Gigi seja cordial e respeitoso e eu esteja adaptada ao lugar, há apenas uma coisa com a qual não me acostumei: a decoração. Sei que gosto não se discute e não me importo com a ambiance, digamos, mais conservadora que Ginette escolheu, até porque a casa não é minha. Mas, tem dias que olho para meu quarto e tenho vontade de arrancar as cortinas, jogar o abajour fora e arremessar pela janela a poltrona verde aveludada que fica no canto do meu quarto e serve de aparador de roupas.

Ginette sempre me pergunta se eu ainda não a utilizei, pois a tal poltrona, além de ser verde aveludada, parece que tem um dispositivo para fazer massagem. Eu nunca testei, pois desde que cheguei aqui digo sempre para essa poltrona o quanto ela é feia, que não gosto dela e por isso jogo minhas roupas, penduro minha toalha e coloco minhas bolsas sobre ela. Com medo de que um dia ela se vingue de mim por conta dos meus insultos, decidi me manter distante.

Minha amiga Nathalie esteve aqui algumas vezes e também não escondeu sua decepção com o décor. Como típica parisiense ligada em moda, artes e profissional da área de design, ela tratou logo de me dar pequenas dicas de como poderia melhorar a aparência do meu quarto. Sugeriu alguns tecidos mais coloridos e pequenos objetos de decoração. Numas das últimas vezes que esteve em casa, não resistiu e tirou dois pequenos quadros da parede. Achei engraçada a reação, pois ela se incomoda mais do que eu com a decoração e por isso agiu impulsivamente, arrancando os quadros da parede sem ao menos me pedir permissão. Foi logo dizendo que ninguém se sentiria em casa se tivesse de olhar para aqueles quadrinhos feios. Assim, decidida, foi lá e os arrancou da parede.

Como meu território dentro de casa se restringe ao meu quarto, cozinha e banheiro, nem me atrevo a tirar absolutamente nada do lugar nos demais cômodos. Pelo que percebi, Ginette adora coisas antigas, para não dizer quinquilharias. Há móveis e pequenos objetos centenários herdados de avós e parentes distantes. A casa não chega a ter a aparência de um antiquário, mas guarda aquele ar mais sombrio por conta dos móveis escuros, antigos, toalhinhas, pratos decorativos nas paredes, enfim, milhares de tranqueiras típicas da casa da vovó.

Destaque para a poltrona verde escura aveludada, a cortina de renda branca sobre a persiana também verde escura. Vejam também os quadrinhos que Nathalie arrancou da parede e que foram recolocados especialmente para esta foto. Laptop sobre a escrivaninha de onde escrevo os posts para este blog. Reparem na mesinha branca de vime à direita, no abajour com capa de flores à esquerda e as almofadas brancas com babadinhos. Para quem não conseguiu visualizar direito o abajour fofo e primaveril, le voilà!
Cama que comprei assim que cheguei aqui e da qual me arrependi depois, pois para onde vou tenho de carregar esse traste. Reparem na cômoda centenária de Ginette, novamente o abajour que parece um segurança em porta de boate e minhas botas de inverno. Ao fundo, o guarda-roupa-closet, uma das poucas coisas de que gosto no quarto. Embora pareça pequeno, ele é amplo e fundo. Ali dentro estão todas as minhas roupas, sapatos, malas, casacos de inverno de Ginette e outras tralhas dela. Ah, de novo, o tal abajour.

sábado, 28 de março de 2009

13 Graus

Os termômetros marcaram 13 graus. Uh là là!!!

quinta-feira, 26 de março de 2009

Em Tempo

Confundi as datas e pensei que hoje era 25 de março. Em tempo, ontem completei 8 meses em Montreal.

Período de Hibernação

Ontem de manhã, pouco antes do meio-dia, os ursos de pelagem escura do Écomuseum de Montreal saíram da hibernação, dando sinais claros de que a primavera defintivamente chegou no Canadá. Segundo o biólogo David Rodrigue, que dirige o pequeno zoológico, os ursos somente saem da toca depois de vários dias de calor e são melhores do que as marmotas para indicar a chegada da primavera no Quebec. O biólogo explica ainda que há nove anos os ursos não deixavam tão cedo de hibernar. No ano passado, eles deram o ar da graça em 15 de abril enquanto em 2003 abandonaram suas cavernas somente em 28 de abril. É o aquecimento global mostrando sua cara também.

terça-feira, 24 de março de 2009

Um Dedinho de Prosa na Sala da Chefe

Minha chefe me chamou para um dedinho de prosa na sala dela. Como ocasiões assim são raras, pois de um modo geral Karine é bastante tranquila e desde que comecei a trabalhar aqui não me recordo de uma conversa reservada, logo imaginei que algum problema estava por vir. Mas qual não foi minha surpresa ao receber a notícia de que minha chefe pediu demissão e decidiu enfrentar novos desafios numa outra empresa, também na área de internet.
Discreta como todos o são por aqui, ela não forneceu mais detalhes sobre sua decisão, mas deixou escapar que quando não nos sentimos muito motivados seja no trabalho ou na vida de um modo geral, é preciso mudar. Foi o que ela fez.
Enquanto outra pessoa não chega para assumir o cargo deixado por ela, eu e minha colega Flavia ficaremos sob a responsabilidade de Adrien, o assistente de marketing. Na prática, a saída de Karine não muda nosso trabalho. Eu continuo a cuidar do serviço em português e francês enquanto Flavia faz a parte de inglês e espanhol. Desejo boa sorte a Karine e espero que o próximo chefe a ocupar seu posto seja alguém tão educado e equilibrado como ela. A equipe agradece.

segunda-feira, 23 de março de 2009

O Bode da Segunda-Feira

Seja no Brasil ou no Canadá, não tem jeito. Quando se trata de segunda-feira, a longínqua perspectiva do final de semana e aquela famosa sensação de bode é a mesma. Dá uma preguiça! Boa semana a todos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Printemps












A primavera chegou. Ebaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!

quinta-feira, 19 de março de 2009

IR e CACI


Hoje, resolvi a questão do imposto de renda. Assim como no Brasil, as declarações de IR começaram há cerca de um mês e devem se prolongar até abril. Para quem não sabe, há dois tipos de declaração que devem ser feitas no Quebec: a federal (Canadá) e a provincial (Quebec). Como o deparatamento financeiro do meu trabalho já havia fornecido os informes de rendimento para as duas declarações, levei a papelada para o Centro de Apoio às Comunidades de Imigrantes (CACI).
Entre outros tantos serviços que presta aos imigrantes, o CACI conta com a ajuda de voluntários para realizar a declaração de IR dos imigrantes. O serviço custa apenas 5 dolares e é uma excelente solução para quem, como eu, nunca fez seu IR em terras estrangeiras. Para mais informações sobre o CACI, visite o site: http://www.caci-bc.org/

terça-feira, 17 de março de 2009

Momento Histórico

Os termômetros devem chegar a 8 graus nesta tarde. Pela primeira vez desde novembro de 2008, abandonei as botas de inverno e calcei o velho e confortável par de tênis. Também abdiquei da meia-calça de lã e estou pensando em sair de casa hoje sem cachecol. Enfim, momento histórico que não poderia deixar de registrar nesse blog.

Caminho entre a porta de casa e o portão principal em pleno inverno, e a mesma imagem fotografada hoje, às 12h05.

domingo, 15 de março de 2009

Você É Mulher Dela?


Rápida conversa que tive ontem, ao telefone, com um desses telefonistas que nos ligam para vender produtos ou oferecer serviços. O rapaz queria falar com Madame Lambert, a Ginette, minha locatária.


(rapaz) - Bom dia, gostaria de falar com Madame Lambert, por favor.
(eu) - Elá acabou de sair e deve voltar no final da tarde. Você gostaria de deixar um recado?
(rapaz) - A que horas eu posso ligar novamente? Pode ser lá pelas 15h?
(eu) - Acho que ela ainda não estará em casa nesse horário.
(rapaz) - Você é mulher dela?
(eu) - Como?
(rapaz) - Ela é sua esposa?
(eu) - Desculpe, não entendi.
(rapaz) - Vocês são casadas, são um casal, esposa... (tom de voz levemente irritado com a minha dificuldade para entender as perguntas)
(eu) - Não
(rapaz) - Ok. Vou tentar ligar no meio da semana.
(eu) - Ok, obrigada. Até logo
(rapaz) - Obrigado e até logo

Depois que desliguei o telefone, pensei o quanto ainda não estou (e talvez não estamos) acostumada com a idéia de que pessoas do mesmo sexo moram juntas e levam uma vida em comum. Especialmente no Canadá, país onde a união civil entre gays e lésbicas é oficialmente permitida e, portanto, nada mais natural perguntar se sou ou não casada com Ginette.
Minha reação ao telefone não foi de choque, surpresa e em hipótese alguma uma manifestação de homofobia. Apenas me dei conta do quanto um simples telefonema pode revelar valores, padrões de comportamento tão assentados e estáticos que, ao mudar essa lógica, de repente me fez parecer surda aos questionamento do rapaz. Claro, entendi cada palavra do que ele me perguntava, mas não consegui imediatamente conectar seu discurso, o seu significado ao meu código.
Porque no fundo, acho que é isso mesmo. Prevalece ainda o discurso em prol do casamento gay e de tantas outras questões consideradas polêmicas e cujo debate está sempre em pauta. Mas, apesar dos avanços, há muito de discurso e pouca prática, a tal de ponto de não soar natural o fato de alguém me perguntar se minha mulher está em casa.
Entendo o discurso do rapaz (suas perguntas), mas não sei respondê-lo imediatamente sem causar um ruído na comunicação, pois simplesmente "foge à regra" e ao "padrão de comportamento" vigente aos quais estamos condicionados.
Nessa hora, entendi perfeitamente o quanto é difícil mudar hábitos e mentalidades, seja porque nos opomos veementemente a eles, seja porque muitas vezes nem nos damos conta ou adquirimos consciência dos fatos e das mudanças.

sábado, 14 de março de 2009

Amores Nem Tão Dóceis, Nem Tão Brutos

Não é de hoje que escuto dizer que os homens quebequenses não tomam a iniciativa na paquera e cabe à mulherada dar o primeiro passo. No início, achava um exagero, mais uma dessas informações estereotipadas que ganham forma de verdade absoluta.
Com o passar dos meses, comecei a prestar mais atenção aos comentários das estrangeiras e das próprias quebequenses que se queixavam da falta de iniciativa da ala masculina no quesito jogo de sedução.
Frases como não me sinto atraente e sedutora porque nenhum quebequense me olha, estou quase assexuada (é possível estar QUASE assexuada?), os quebequenses não entram ou não sabem participar do jogo da sedução porque têm medo das mulheres, eles falam demais e fazem de menos, foram apenas alguns dos lamentos que chegaram aos meus ouvidos.
Intrigada com o fato e depois de ter percebido que realmente eles não olham ou demonstram qualquer indício de que se interessam por uma garota, resolvi fazer uma mini-enquete sociológica e perguntei para os quebequenses (homens e mulheres): na sua opinião, por que os quebequenses não paqueram e não tomam a inciativa com as mulheres ? Por que eles não demonstram claramente a que vieram, o que querem? Em bom português, por que eles não chegam junto?
Pensei que a ala masculina ficaria ofendida, mas qual não foi minha surpresa ao constatar que eles não só concordavam com os comentários que andam à solta por aí como também sustentavam seus argumentos com respostas que talvez expliquem essa aparente falta de desejo. Na opinião das quebequenses, os rapazes têm medo das mulheres porque eles estão perdidos no meio de tantas conquistas e transformações do que antes se denominava o sexo frágil. Para elas, existe uma espécie de crise de identidade masculina que perturba os rapazes, deixando-os inseguros na hora de cortejar uma mulher e ter de dar conta do poderio feminino.
O time masculino, por sua vez, não desmente a afirmação de que sim, sentem-se inseguros e acuados, mas não necessariamente devido à força, o vigor e à pujança feminina. Conforme me explicou um nativo, é preciso entender que o Quebec teve, na sua formação, uma sociedade matriarcal cujo legado deixou ser rastro nos dias atuais. Outro argumento diz respeito a essa relação quase bipolar entre o lado francês e inglês da província. A parte mais calorosa e latina, herdada dos franceses, e a porção mais fria e contida dos anglo-saxões.
Além disso, ele acredita que as leis do Quebec oferecem tantas vantagens e proteção às mulheres em detrimento dos homens que muitas vezes é melhor não mexer com a mulherada, sob risco de ir para a cadeia ou ter de pagar uma pensão milionária em casos de separação. Evidentemente, esse quebequense em nenhum momento defendou a tese de que as mulheres não merecem toda a assistência possível. Para ele, a lei é justa é deve ser aplicada.
No entanto, ele questiona o fato de que algumas mulheres se aproveitam dessas mesmas leis para simplesmente arrancar tudo dos pobres rapazes (dinheiro, filhos, casa, pensão, carro e até a própria pele do sujeito, se for necessário). Não é o direito garantido às mulheres que importa nesses casos, mas a pura vingança feminina, acredita ele.
E quanto aos casais de namorados e os que ainda não dividem o mesmo teto? A resposta é simples: os quebequenses têm medo das nativas porque, como eles mesmos dizem, elas são muito duras e rudes, no melhor estilo mulher-macho. Levantaram até a hipótese de casos de violência feminina contra homens cujos detalhes não são relatados. Alguém poderia perguntar: mas eles são uns pamonhas, não reagem, fazendo valer a máxima do bateu, levou? Talvez não. Ainda que o homem argumente autodefesa, é muito fácil a situação assumir contornos de violência doméstica (sujeita a punições severas) contra a mulher. Afinal , e ironicamente, ainda somos o sexo frágil.
Um quebequense (fofíssimo, por sinal), me confessou: "no começo, elas são simpáticas, lindas e agradáveis. Depois, quando somos fisgados e estamos completamente apaixonados, elas simplesmente mudam radicalmente e se transformam em uma outra pessoa. Ficam completamente loucas." Claro, o argumento desse quebequense é frágil porque generaliza todos os casos a partir de sua experiência traumatizante: ele saiu de casa para fugir da ira de sua ex-mulher, deixando para trás todos os seus pertences.
Nessa inversão de papéis, até eu entrei na dança e fui taxada por uma quebequense de ser "boazinha" demais com os meninos. Para ela, via-se logo que eu era uma estrangeira, pois uma quebequense jamais seria atenciosa e demontraria, de maneira simpática e amistosa, seu interesse por um rapaz. Logo eu, uma santa!
Segundo as regras da sedução feminina quebequense, era preciso primeiro fazer o cara se arrastar aos seus pés ou, como dizemos no Brasil, fazê-lo "comer na palma da mão", nem que para isso fosse necessário desprezá-lo e maltratá-lo tal qual mulher de malandro.
Claro, como sou uma mulher nascida e criada numa sociedade machista e a suposta docilidade não somente é um sinal de submissão como também uma forma de burlar a imposição do macho latino, não entendi imediatamente o que essa quebequense quis dizer. Apenas perguntei por que ela me achava boazinha e arrematei o comentário dizendo que tinha pena dos meninos por eles serem tratados assim.
Ela, estarrecida com a minha dúvida, desistiu de me convencer, riu num tom sarcástico, e me deu como caso perdido. Quanto a mim, sigo com as minhas observações, mas desejo aos quebequenses, brasileiros, enfim, a todos, amores nem tão dóceis, nem tão brutos. Apenas amores lúdicos, bem-humorados, divertidos e tesudos!

sexta-feira, 13 de março de 2009

Estações Musicais

Ok, estou obcecada pelo metrô de Montreal. Mas não poderia deixar de notar outras características dos subterrâneos daqui. Assim como as demais cidades do mundo, o metrô de Montreal é um palco para os artistas, especialmente músicos amadores ou profissionais, expressarem sua arte. Por se tratar de um lugar público, pensei que bastava posicionar-se em qualquer canto das estações, de preferência num ponto bem visível. Depois, me dei conta de que se você quiser se apresentar, é preciso respeitar as placas que indicam o ponto certa para sua mise en scène. Normalmente, em cada estação você encontra um plaquinha azul, colada na parede, onde está desenhada uma harpa.
Ela pode estar afixada no corredor que dá acesso a uma outra estação, num canto, enfim, em qualquer lugar, e não são muitas espalhadas pelas estações. Pelo que entendi, parece que não há uma escala de horários entre os artistas. Como eles mesmos dizem por aqui: premier arrivé, premier servi. Ou seja, o primeiro que chegar, ocupa o espaço.
Aliás, nunca vi nenhum artista se solidarizar com um colega e dividir seu espaço. Pelo visto, aquele que leva uma carreira solo não abre mão de seu momento de glória quando, ao descerem as escadas rolantes, os usuários do metrô dão uma olhadinha no espetáculo ou deixam algumas moedas.
Outro dia, presenciei uma cena que prova o quanto esse espaço pode vir a ser motivo de disputa. Moro próximo à estação Jean Talon e todos os dias cruzo com os mesmos artistas: a garota da sanfona, o velhinho do acordeon, o cara que canta Celine Dion sem playback, a dupla de Hare Krishna, o senhor do violoncelo e, raramente, um homem que toca violino. Numa dessas minhas idas e vindas no metrô, presenciei uma leve discussão entre o velhinho do acordeon e o cara que canta Celine Dion.
Ao que tudo indica, o velhinho tinha chegado primeiro, mas seu tempo de permanência no espaço musical tinha acabado. Ele, porém, não queria ir embora e o cantor de Celine Dion resolveu, então, fazer sua apresentação ali mesmo, do lado do velhinho. Cada um com seu repertório e provavelmente os dois tocando e cantando ao mesmo tempo. Enfim, um verdadeiro samba do crioulo doido!
Ambos apontavam para a tal placa azul com o desenho da harpa, e enquanto o velhinho reclamava em inglês, o cantor respondia, com um sotaque francês acentuado: "I'm sorrrrrry!"A cena não durou mais do que cinco minutos, tempo que tive para descer a escada rolante e seguir meu caminho. Infelizmente, não consegui presenciar o final da história e saber se ambos decidiram formar um dueto e deixar suas diferenças de lado em nome da arte.
Aliás, nenhum dos artistas que mencionei nesse post é meu preferido, exceto talvez a garota da sanfona, que todas às vezes que me vê dá um sorriso. O meu artista querido do metrô de Montreal é um senhor negro, beirando os seus 60 anos ou mais, em plena forma, que toca guitarra na estação Sauvé.
Sempre com uma boina na cabeça e um sorriso largo no rosto, escuto e vejo o prazer com que ele toca e ama a música. Às vezes, parece estar até hipnotizado e nem se importa com o barulho dos passantes que correm apressados depois de um dia de trabalho.
Eu, porém, desde que desembarco na plataforma do metrô às 18 horas, às segundas e quartas-feiras rumo ao curso de inglês, sei se meu músico preferido está se apresentando, pois escuto de longe seu repertório de blues, jazz ou bossa nova. É bem bacana!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Modus Operandi

Esta é a primeira vez que trabalho fora do Brasil. Para além de todos os detalhes que se aprende nas atividades mais corriqueiras no novo país em que se está vivendo, incorporar a cultura do trabalho, ou seja, entender o jeito de ser, agir e pensar de seus colegas de empresa requer também toda uma adaptação. É assim que aos poucos entendo a lógica dos quebequenses no ambiente profissional. Evidentemente, não há regras rígidas e em nenhum momento pretende-se definir um padrão de comportamento. Trata-se apenas de um modus operandi, uma lógica que permeia as relações no trabalho.
Uma delas, é já mencionei isso em post anterior, diz respeito ao horário de expediente. Por aqui, o mundo pode desabar, mas quando o relógio bate 17 horas, é chegado o momento de ir embora. Ok, exagero um pouco, mas são raros os casos de hora extra ou de algum funcionário ficar mais tempo na empresa por conta própria porque precisa entregar um projeto que está atrasado.
Os próprios montrealais dizem que gostam muito de curtir a vida, especialmente no verão. Então, dificilmente você encontrará um empregado até tarde no serviço ao invés de estar na rua aproveitando o sol e as diversas atividades de veraneio que a cidade oferece. O emprego, portanto, é apenas uma parte da vida deles.
O ritmo de trabalho e de vida também é outro, sobretudo quando comparada à pressa e à urgência dos paulistanos, que correm tanto para chegar não sei aonde. Minha chefe, por exemplo, veio me perguntar outra dia se eu não estava sobrecarregada de atividades. Eu, que no início imprimi a cadência de São Paulo, agora estou mais tranquila e num ritmo allegro pero non troppo.
Outro aspecto interessante e que me incomodou muito no começo, é que os montrealais não dizem bom dia ou te cumprimentam quando você chega ou vai embora do trabalho. Antes, pensava que era alguma coisa pessoal, talvez relacionado ao fato de ser estrangeira.
Depois, ao comentar com outros estrangeiros, todos já haviam percebido essa característica. Muitas vezes seu colega nativo passa várias vezes por você ao longo do dia e não te olha, não te enxerga. Subitamente, sem o menor aviso, diz oi, tudo bem ou bom final de semana. Já passei por uma situação em que a pessoa de repente me viu e comentou que não havia reparada na minha presença.
Detalhe: era no meio da tarde, tinha chegado na parte da manhã e minha mesa fica quase de frente para essa pessoa. Isso quer dizer que às vezes um simples oi vai sair lá pelas 16 horas, quase no final do expediente. Ir até a mesa do colega próximo a você ao invés de telefonar ou mandar email, jogar conversa fora encostado na baia ou chamá-lo para tomar um cafezinho na cozinha, não fazem parte desse modus operandis.
Outra constatação que tivemos é que os quebequenses não vão direto ao ponto e em algumas circunstâncias são até mais literais. Esta semana, por exemplo, pedi a ajuda de um colega quebequense para verificar se havia algum problema na publicação da foto de um cliente no site onde trabalho, pois depois de algumas tentativas, havia fracassado no processo. Ele, conhecedor de informática que é, resolveu o assunto rapidamente. Mas, ao invés de fazer o procedimento na própria página do cliente e assim resolver o assunto de uma vez por todas, meu colega usou uma outra página de teste e, ao constatar que tudo estava correto, desfez o processo e me avisou o que deveria ser feito. Oras, nada mais natural, afinal, pedi para verificar o problema e não publicar a foto. Literalmente, foi o que fez.
Certo, a tarefa estava sob minha responsabilidade e nada mais justo do que eu dar conta do recado. Assim, ele me mandou um email dizendo que bastava renomear o arquivo excluindo os acentos. Tentei, mas novamente o processo falhou. Voltei à mesa dele e disse que não havia funcionado. Novamente, ele repetiu todo o processo numa página de teste e mais uma vez estampou a foto. Conversamos, discutimos para tentar buscar uma solução, perguntei-lhe se poderia ser um problema no meu computador, se o erro era por conta de a foto ser publicada no site na versão em português, expliquei-lhe que havia seguindo sua orientação.
Lá pelas tantas, ele diz: "talvez você estava com a cabeça nas nuvens e se esqueceu de clicar na foto para abri-la e, somente depois, dar um novo nome ao arquivo. Não basta apenas clicar em Salvar Como e criar um novo nome (foi exatamente isso que tinha feito)".
Está bem, sou uma anta-mestre dos computadores e provavalmente esse processo é tão óbvio que não passou pela cabeça dele alguém não saber disso. Mesmo assim, olhei para a cara dele como quem diz: e por que você não me falou isso antes, já que estou aqui há pelos menos uns 15 minutos explicando o que fiz ou deixei de fazer e em nenhum momento mencionei essa questão de abrir a imagem ?
Sabe aquela sensação de mergulhar num mar coalhado de tubarões e te avisarem somente depois que ali é a morada desses bichinhos fofos e um deles está exatamente do seu lado pronto para te triturar? Exageros à parte, é mais ou menos por aí. Finalmente, para ter a certeza de que a foto do cliente gracinha foi realmente publicada, pedi para meu colega fazer o teste na página do próprio sujeito a fim de me certificar de que tudo estava certo. E de fato, estava. Ufa!!!!

quarta-feira, 11 de março de 2009

A Baratinha No Metrô

Mais uma vez a história se passa no metrô. Desde que cheguei aqui, não deixo de mencionar o quanto adoro os subterrâneos de Montreal, pois além de me proteger do frio, presencio e observo pessoas e situações interessantes, bizarras e engraçadas. Agora há pouco, estávamos todos sentados no banco esperando o trem chegar. À minha direta, dois rapazes. Um deles, olhava para o chão. O outro, estava concentrado na leitura de uns papéis da rádio Canadá. Em nenhum momento bisbilhotei a papelada do sujeito, apenas dei uma olhadinha e sem querer vi o emblema da empresa.
À exceção desses dois moços, quase todo o banco estava tomado por mulheres. Do meu lado esquerdo, uma senhora cheia de sacolas e, mais à sua direita, outra mulher, talvez uma haitiana. Todos em silêncio (comparado à estação Sé de São Paulo, o metrô de Montreal é de um silêncio quase sepulcral), ouvindo seus Ipods, lendo, fazendo palavras-cruzadas ou com o olhar perdido para qualquer ponto da estação.
De repente, a haitiana dispara a falar para a mulher das sacolas: "Madame, cockroach!!! Madame, madame, cockroach!!!. Ela não chegou a gritar, mas apontava assustada para debaixo do banco. Como tinha um sotaque acentuado, típico dos haitianos por aqui, acredito que quase ninguém, inclusive eu, entendeu o que ela queria dizer. Mas, visto seu nervosismo, ninguém hesitou em pular rapidamente do banco. Apenas o cara que lia os documentos da rádio Canadá permaneceu imóvel. Alguns, posicionaram-se na borda da plataforma, sem dar muita importância ao fato. Outros, principalmente a ala feminina, levemente assustada, olhava para debaixo do banco à procura desse monstro escondido sob nossos pés.
Foi então que a haitiana nos apontou uma barata, uma baratinha dessas inofensivas, minúsculas que, de tão assustada por conta do estardalhaço, correu de volta para seu buraco. Ninguém pisou ou esmagou a pobre coitada. Muito menos houve gritos, comentários, risos ou indignação por conta de um acontecimento tão banal. Na verdade, só eu dei risada e comentei: "nossa, pensei que fosse um monstro!" Porém, como ninguém fez nenhum comentário bem-humorado, fechei a boca, sentei novamente no banco e recuperei o ar sério, fingindo ler um livro.
Confesso, porém, que num determinado momento não consegui me controlar: inclinei o tronco e quase enfiei a cabeça embaixo do banco para ver se a baratinha ainda estava por lá. Depois, olhei para todos que decidiram ficar de pé e esbocei uma risadinha para a mulher das sacolas, que ainda mantinha um ar atônito por conta do susto. Ela, no entanto, não achou nenhuma graça e não me retribuiu o sorriso.
Daí, pensei que se a mesma cena acontecesse nos metrôs lotados de São Paulo, provavelmente um engraçadinho tiraria uma foto com sua câmera de celular ou um corajoso(a) esmagaria a baratinha tão indefesa. Sem contar os comentários sobre a sujeira que atrai as baratas, a história hiperbólica de outro que jura ter visto um rato gigante nos trilhos (sim, porque a barata é só um pretexto para que toda uma fauna se manifeste), os risos, o ar de nojo ou de desprezo de alguns passageiros e os gritinhos histéricos e assustados de alguma donzela indefesa. Perdida nos meus pensamentos, eis que finalmente o trem chega. Embarcamos todos e seguimos viagem.

terça-feira, 10 de março de 2009

Bye, Bye Michel

Hoje, foi meu último encontro com Michel. Meu conselheiro profissional, que me acompanha desde agosto de 2008, apenas um mês depois de ter desembarcado em Montreal, pediu demissão. Há 5 anos no Serviço de Integração ao Mercado de Trabalho por Objetivo (SIMO) orientando os imigrantes na busca por um emprego, Michel quer agora novos desafios profissionais e, quem sabe, futuramente mudar-se para o campo.
Recebi a notícia no meio de nosso encontro, enquanto relatava meus pequenos avanços e expectativas não somente no quesito trabalho, mas da vida de um modo geral. Desde que nos conhecemos, foram poucas às vezes que deixei de frequentar seu escritório. Tínhamos encontros semanais, mesmo que não houvesse nada de novo a acrescentar ao meu dossiê profissional.
Foi Michel quem desde o início organizou meu curriculum vitae segundo os padrões daqui, orientou-me quanto ao mestrado, as traduções dos diplomas, as centenas de papéis que tive de dar conta, o pedido de crédito educativo e me forneceu também milhares de endereços de sites de emprego, agências de recolocação profissional e nomes de entidades e associações importantes, sem contar as dicas para os cursos de inglês que estou estudando atualmente. Para além da parte técnica, Michel era também quase um terapeuta, pois aguentou durante esses meses todos meus momentos de insegurança e ansiedade.
Por isso, recebi a notícia com alegria por sua decisão de mudar e, ao mesmo tempo, uma certa tristeza. Posso continuar a frequentar o SIMO sempre que quiser e precisar, pois certamente outro conselheiro assumirá seu posto. Mas, além de não ser mais o meu conselheiro profissional de sempre, creio que já tenho condições de caminhar com minhas próprias pernas. Talvez, uma vez ou outra, volte ao SIMO para alguma orientação, mas acho que não serei mais uma habituée.
Nossa conversa acabou com aquela sensação de que na semana que vem estarei lá novamente. Apenas apertamo-nos as mãos, desejei-lhe bon courage e encerramos nosso encontro com o habitual bye, bye Michel, à la prochaine.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Mais Luz

O horário de verão começou no sábado, 7 de março. Adiantamos uma hora os relógios e agora estamos apenas uma hora atrás do Brasil. Sempre detestei o horário de verão, especialmente quando estava no Brasil, pois meu relógio biológico demorava para se adaptar e não aguentava aquele sol do cão na cabeça às oito horas da noite. Por aqui, no entanto, dou a mão à palmatória. O frio diminuiu um pouco e às 19 horas ainda é dia. Hoje, senti até um astral diferente quando peguei o ônibus para ir ao curso de inglês e estava totalmente claro. Lembrei-me de alguns meses atrás quando a noite caía às 16 horas. Daqui para frente e no ápice do verão, os dias serão bem mais longos e começará a escurecer por volta das 21 horas. Não vejo a hora!

sábado, 7 de março de 2009

O Meetup, a Taça de Vinho e os Meninos

Ontem, fui ao meetup de português. Conforme comentei em post anterior, eu era a única representante brasileira e mulher presente ao encontro, que aconteceu num restaurante português chamado Tasca, muito agradável por sinal. É bem verdade que não havia muita gente, talvez cerca de oito homens, entre cambojano, francês, quebequense, tailandês e outros que não tive a oportunidade de conversar.
No geral, sou um pouco tímida para encontros desse gênero. Mas, depois de um dia de trabalho, pedi uma taça de vinho e a certa altura me dei conta de que estava bastante desenvolta, mais falante e articulada do que o habitual, especialmente quando converso com pessoas que não conheço. Aliás, poucas vezes na minha vida fiquei embriagada, e não foi o caso desta vez, mas quando fico mais alterada percebo que falo mais, discuto, debato, pergunto, questiono, me interesso mais pelo outro, tudo de forma simpatica e cordial. Enfim, não pretendo a essa altura da vida me tornar um alcoolatra, mas inegavelmente sou mais interessante quando estou ligeiramente bêbada.
Mas, voltando ao meetup e depois de apenas uma taça de vinho na cabeça, claro que tive uma noite agradável. Conversei principalmente com um quebequense que morou 3 anos no Brasil, mais precisamente no Recife, um francês que está há 15 anos em Montreal e fala 5 idiomas, entre os quais o português, e um cambojano, líder do grupo e interessado em diferentes culturas, além de outro canadense que vem de outra cidade e é fascinado pelo Japão, país onde morou por 5 meses e pretende voltar no próximo verão para ficar pelo menos um ano.
E, no meio desse caldeirão multicultural, estava eu, contando, pela milésima vez, quando cheguei e o que estou fazendo em Montreal. Talvez embalada pelo vinho, dessa vez não tive preguiça de explicar o mesmo assunto. Também devo confessar que gostei bastante de ficar no meio da ala masculina. Definitivamente, acho as mulheres interessantíssimas, mas adoro os meninos!

Lépida, Fagueira e Serelepe

A primavera começa oficialmente no dia 20 de março. O clima por aqui ainda é instável e há quem diga que até abril há o risco de tempestades súbitas de neve. Mas, já faz bem menos frio comparativamente aos 26 graus negativos registrados em janeiro. Para a próxima semana, a previsão é de temperaturas acima de zero graus e os termômetros podem marcar até 9 graus na quinta-feira!!!! Um verdadeiro espetáculo da natureza de calor e tempo bom! Outro dia, até vi passarinhos cantarolando aqui e ali na árvore ainda seca do quintal de casa. Logo pensei: bom sinal, a primavera está chegando. E eu, assim como os passarinhos, começo a ficar toda lépida, fagueira e serelepe, pronta para sair do período de hibernação.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Froi

Amanhã, sábado, vou à festinha de aniversário de Froi. Embora filipino de nascença, Froi cresceu na California e, assim como eu, deixou para trás o sol e há alguns meses veio se instalar em Montreal. Segundo me explicou, ele estava cansado de tanto sol que já tomou na cabeça nos últimos 30 anos de vida e aproveitou o fato de ter encontrado um marido no Quebec para mudar de clima. É verdade que a troca foi radical, considerando-se que tivemos um inverno que chegou a - 28 graus este ano. Mas Froi está feliz assim, afinal, foi no meio desse frio todo que ele encontrou seu cobertor de orelha e amanhã celebra seu primeiro aniversário nessas terras glaciais. Então, joyeux anniversaire, Froi!