sexta-feira, 15 de maio de 2009

Versão Light x Versão Safada

Tenho pensando em sexo. Não, não tenho pensado no ato em si. Enfim, sim, penso no ato em si, mas neste caso me refiro às minhas observações quando caminho pela cidade e constato as diferenças marcantes das pessoas de Montreal e São Paulo. Ai, claro, nada fica de fora, inclusive quando o tema é a manifestação da sexualidade, do desejo, das taras das pessoas as mais comuns que cruzo nas ruas.
Em São Paulo, apesar do caos e da multidão que se arrasta e te leva junto, as pessoas ainda encontram um jeito de paquerar. Exatamente, algo simples assim: paquerar. Não sei nem o que dizer das demais cidades onde o sol brilha o tempo todo, a praia é logo ali e corpos bonitos, bronzeados e sarados desfilam livremente. Pois é, a paquera tem a ver com expressão corporal, imaginação e em muitos casos dispensa qualquer blá, blá, blá.
Pelo menos é assim que vejo a sexualidade dos brasileiros, recheada sim, de uma inegável latinidade que não esconde o desejo muitas vezes até, digamos, um pouco agressivo, pois se vacilar, você corre o risco de não entender (mas depois talvez acabe até gostando) porque seu corpo foi involuntariamente agarrado. Olhares, insinuações e em alguns casos descaramento puro fazem parte do jogo da sedução.
Em Montreal, a lógica parece funcionar de outro jeito. Nem melhor ou pior, longe disso. Os montrealaises não deixam de citar o seu lado latino para mostrar o quanto também são calorosos. Vejam, eu disse calorosos, mas não necessariamente, quentes. Pelo menos não a olhos nus. Ok, há sempre um sorriso por parte deles e uma educação invejável. São bons de papo, conversam sobre tudo e dificilmente utilizam uma abordagem mais agressiva quando querem impressionar uma mulher.
Não há aquele olhar desejoso (de tarado mesmo!) para as mulheres, mesmo quando elas fazem da camiseta mais longa o vestidinho de verão. E, quando alguém te olha, tenha a certeza, são árabes ou latinos. No metrô, lugar que adoro não somente pela riqueza de histórias e personagens, mas porque ali é um excelente lugar para a paquera, constatei que uma grande parcela dos usuários passa boa parte do trajeto com o Ipod no ouvido, lendo jornal, livro, dormindo, falando sozinho ou olhando para o chão.
Fora do subterrâneo, como o frio dura praticamente seis meses, os corpos cobertos o tempo todo não inspiram grandes fantasias. Tudo bem, alguém pode dizer que uma fantasia sexual não precisa necessariamente de um pedaço de carne à mostra, pois o que importa é o amor. Eu sei, entendo isso também, mas estou falando de pulsão sexual, vulgo, tesão. E acho sim, que nesse quesito, um belo corpo (segundo o gosto de cada um) estimula muito o imaginário.
Vamos a um exemplo mais objetivo: perto de casa, uma empresa começou a demolir parte de um escritório. Ao contrário do Brasil, aqui não tem muito isso de chamar o seu Zé da obra para tocar o projeto. Tudo é feito na base de empresas especializadas e seus operários contratados, grandes máquinas, tudo com a maior segurança e profissionalismo.
Pois bem, todos os dias passo em frente da obra e, numa dessas manhãs, dei um sorriso e disse "Bonjour" a um dos operários. Juro que não estava paquerando o cara! Sei lá, escapou, estava de bom humor, o sol radiante lá fora. Em qualquer outra circunstância no Brasil, o andaime já teria vindo abaixo. Estou bem longe de ser a gostosona do pedaço, mas qual a mulher que já não levou uma cantada daquelas bem chulas do time masculino da construção civil?
O meu operário padrão, para quem todos os dias agora digo "Bonjour" e solto um sorrisinho (sim, no começo não era paquera, mas como ele é gentil e educado, agora acho que mudei de idéia), está muito distante disso.
Ele corresponde às minhas investidas quase adolescentes com um simples meneio de cabeça (Red, esta é para você) , mas não chega a esboçar aquele sorriso Colgate e, claro, não me aborda de jeito nenhum. É discreto, quase não reage, mas fica ali, no alto daquela máquina que suspende, arremesa, joga, atira blocos, pedras e o que mais você quiser me olhando de soslaio com aquele olhos azuis.
Como sou tímida, há momentos que tenho vontade de dar uns berros com esses homens daqui para ver se eles fazem alguma coisa, mas depois chego à conclusão de que gosto dessa versão light canadense de sedução. Se bem que também gosto da versão safada brasileira. Dá para juntar um pouco das duas?

2 comentários:

Redneck disse...

Pois pare de apenas sorrir, falar bonjour e menear a cabeça e remexa o corpo todo feito um tatuzão do metrô. Dê um berros e soe como uma sirene de ambulância porque, se quiser soar como o canto da sereia, esses homens e suas máquinas e construções maravilhosas vão ficar estacados ali mesmo, feito britadeiras barulhentas e só. Que seus andaimes balancem feito o de SP que quase derrubou dois.

La Voyageuse disse...

Ai Red, eu sei, eu sei que so mesmo bancando a tatuzona que o negócio avança por aqui.

Bjo